O primeiro carro elétrico da Ferrari acaba de ser lançado e já recebeu uma avalanche de críticas
Fonte: Relatório de Mercado Global
Os executivos da Ferrari sabem muito bem que o primeiro carro elétrico da marca seria alvo de críticas. Mas talvez não esperassem que as críticas fossem tão intensas.
Nesta semana, o tão aguardado novo modelo da Ferrari mal foi lançado e já foi alvo de uma enxurrada de ataques. O novo carro chamado "Luce" é espaçoso e possui teto de vidro, com design criado por uma equipe que já participou de projetos importantes da Apple. No entanto, seu preço exorbitante de 550.000 euros (aproximadamente US$ 640.000), aliado ao visual semelhante aos veículos elétricos populares como o Nissan Leaf, tornou-o alvo de chacota coletiva.
Memes zoando o design viralizaram rapidamente na internet, com usuários comparando-o à controversa reestruturação de marca da Jaguar no final de 2024. Por anos, proprietários e entusiastas ferraristas imaginaram como seria o primeiro carro elétrico da marca; agora, decepcionados, criticam duramente o design nos fóruns de fãs da Ferrari.
"Meu Deus, esse carro é horrível", disse Luc Poirier, empresário do ramo imobiliário em Montreal, ao ser questionado sobre o modelo. Ele é dono de mais de 40 Ferraris. "Por que carregam um preço de 400 ou 500 mil? É inacreditável."
Até mesmo no vídeo promocional divulgado dias antes do lançamento, houve surpresa entre funcionários internos sobre o visual do carro. "Inesperado", disse um; "Surpreendente", comentou outro.
Após o evento de lançamento, as ações da Ferrari caíram 8% na terça-feira, evaporando mais de US$ 5 bilhões em valor de mercado da maior fabricante de automóveis da Europa.
No entanto, a polêmica não impediu a Ferrari de exibir o novo carro para autoridades. O presidente italiano Sergio Mattarella compareceu pessoalmente e, depois, o veículo foi levado ao Castel Gandolfo, residência oficial do Papa Leo XIV nos arredores de Roma. O Papa até fez questão de posar ao lado de uma Luce branca.
De fato, ao lançar este carro, a Ferrari já sabia que seu design seria altamente controverso. O objetivo da empresa é expandir a definição de "unicidade" da Ferrari através da Luce.
Em resposta às "críticas" externas, a porta-voz da empresa mostrou uma postagem recente do CEO da Ferrari, Benedetto Vigna, no LinkedIn. Ele escreveu: "A inovação genuína nunca é resultado de processos democráticos. Ideias revolucionárias raramente nascem do consenso imediato."
Antes do lançamento do modelo, em uma entrevista, o presidente da Ferrari, John Elkann, admitiu: o carro rompe com a tradição da Ferrari, visando solucionar problemas recorrentes do setor de carros elétricos de luxo atuais. "Este é definitivamente um automóvel voltado para o futuro", afirmou.
Em retrospectiva, quando o projeto Luce foi anunciado pela primeira vez em 2021, o entusiasmo global pelos veículos elétricos estava no auge. Hoje, o cenário mudou drasticamente: nos EUA, o interesse dos consumidores diminuiu; montadoras chinesas dominam o mercado; e fabricantes europeus, após uma expansão agressiva, enfrentam perdas bilionárias devido à desvalorização de ativos.
"Acho que naquela época eles identificaram uma grande oportunidade", observa Jim Meek, presidente do Ferrari Club of America. "O consenso na indústria era 'você precisa lançar elétricos'... mas agora o mercado não é mais tão fervoroso como antes."
Meek disse que, apesar do feedback dos proprietários ser similar ao das críticas online, detalhes específicos do novo modelo despertaram interesse dos compradores — do interior ao conjunto de quatro motores, passando pelo projeto de baixo centro de gravidade que favorece a condução.
"Eles mal podem esperar para ver o carro real e querem saber como será a experiência de dirigir", disse Meek.
Para a Ferrari, o modelo estabelece vários recordes para a marca: primeiro motor totalmente elétrico, primeira versão com cinco lugares e primeiro carro de produção com preço acima de US$ 600 mil. Além disso, a empresa quebrou a tradição de depender apenas da equipe de design interna, trazendo o ex-CEO de design da Apple, Jony Ive, e sua equipe.
Mais importante, é a primeira grande prova para a empresa: sem o tradicional motor a combustão — potente e barulhento, origem da lenda Ferrari — será que os fãs ainda pagarão por um modelo que apenas ostenta o símbolo da marca?
Esse lançamento disruptivo também deu um alvo aos críticos de longa data da Ferrari.
"Se eu falar o que realmente penso, prejudicarei a Ferrari. Estamos correndo o risco de destruir uma marca lendária", declarou Luca di Montezemolo, ex-presidente da Ferrari, à imprensa local.
Durante sua gestão, ficou famoso por afirmar que a Ferrari nunca fabricaria carros elétricos. "Pelo menos, espero que retirem o cavalo do carro", ironizou, referindo-se ao icônico símbolo do cavalo empinado.
Por outro lado, o time de design por trás do carro defende a ousadia dessa decisão.
"A Ferrari não precisava fazer isso. Justamente porque foi um passo inovador tão grande, tornou-se controverso e arriscado", comentou Ive no vídeo de entrevista publicado no YouTube, apresentado pela jornalista de tecnologia Cleo Abram, na segunda-feira.
O chefe de design da Ferrari, Flavio Manzoni, comentou na mesma entrevista que a Luce não é o primeiro caso de quebra de promessa da marca sobre entrar em segmentos específicos. Outro ex-presidente garantira que a empresa nunca faria um SUV, mas em 2022 lançou o Purosangue, redefinindo o conceito tradicional desse tipo de veículo.
"Na época também foi muito criticado, mas acabou se tornando o modelo mais vendido. O carro elétrico passará pelo mesmo processo", disse Manzoni. "A crítica faz parte do processo."
No entanto, talvez as opiniões dos que desprezam a Luce não sejam relevantes.
"Basta a Ferrari fazer um carro que os clientes virão comprar. Esse sempre foi o modelo da Ferrari", escreveu Stephen Reitman, analista do setor automotivo da Bernstein, em relatório. "Acreditamos que essa fórmula de negócios continuará funcionando."
Segundo Reitman, isso se deve ao modelo de vendas único da Ferrari: a empresa seleciona rigorosamente quem pode comprar seus modelos mais raros, baseando-se na lealdade e no histórico de compras dos clientes. Outros compradores buscam completar sua coleção Ferrari.
"Para a Ferrari, este é um automóvel revolucionário e altamente controverso, que entra em um segmento até então de baixa demanda por elétricos", observou Reitman. "Nunca faltaram céticos, no passado ou no futuro, que dirão: a Ferrari foi longe demais desta vez."
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