Ex-especialista em commodities do Goldman Sachs comenta sobre o “acordo EUA-Irã”: venda tweets, compre commodities reais
O mercado de petróleo está comunicando através dos preços, não de declarações políticas.
Trump declarou no fim de semana que os EUA estão próximos de alcançar um acordo de paz com o Irã e que o Estreito de Ormuz pode ser reaberto, provocando uma queda imediata no preço do petróleo. No entanto, Jeff Currie, ex-chefe de pesquisa de commodities do Goldman Sachs e atual conselheiro de energia do Carlyle Group, permanece altamente cauteloso.
Em uma entrevista na segunda-feira, ele citou um registro histórico sóbrio: desde o início dos conflitos, houve cinco anúncios de acordos e zero fechamentos. Ele resumiu esse padrão em uma frase – "venda o tweet, compre a molécula (sell the tweet, buy the molecule)".
Currie aponta que a posição de negociação do Irã tem se acumulado ao longo do tempo, em vez de enfraquecer. Os estoques globais de petróleo continuam caindo significativamente, só na última semana houve uma redução de 17 milhões de barris. Ele alerta que partes do mercado asiático já atingiram o nível operacional mínimo de estoques, a Europa enfrentará pressão nas próximas semanas e os EUA podem enfrentar escassez de oferta em julho. Mesmo que o estreito seja reaberto amanhã, a verdadeira resolução do problema de abastecimento ainda levará pelo menos seis meses.
"Cinco anúncios, zero fechamentos": expectativas de acordo difíceis de se concretizar
Currie é claramente cético quanto ao progresso das negociações entre EUA e Irã. Ele afirma que um alto funcionário do Oriente Médio certa vez lhe disse que, nas negociações com o Irã, há uma regra de ferro: o momento em que você acredita que venceu é exatamente quando percebe que pode ter perdido.
Ele enfatiza que a posição de negociação do Irã está no seu ponto mais forte em 47 anos. O motivo é que, a cada dia que passa, os estoques globais de petróleo diminuem, o poder de barganha do Irã aumenta e o do Ocidente se enfraquece. Essa estrutura assimétrica faz com que qualquer anúncio de acordo seja difícil de se converter em efetivo alívio na oferta.
Estoques críticos: da Ásia para a Europa e para os EUA
Currie desafia diretamente a percepção de mercado de "estoques abundantes". Ele explica que há em tese cerca de 8 bilhões de barris de petróleo estocados globalmente, mas a maioria serve apenas de preenchimento de dutos e sistemas, não estando realmente disponível. Os estoques realmente disponíveis só podem cair até o chamado "nível operacional mínimo", e a Ásia já atingiu esse ponto crítico.
Ele descreve um caminho de disseminação regional: o mercado de Cingapura já apresentou grande volatilidade nos preços dos derivados, o preço do combustível de aviação recuou, mas o do diesel já superou o de combustível de aviação, mudando o problema de um produto para outro. Na Europa, atualmente há uma importação maciça de petróleo bruto dos estoques estratégicos dos EUA (SPR), mascarando temporariamente a pressão dos estoques locais, mas esse canal não é sustentável. Ele prevê que problemas surgirão na Europa após o fim dos feriados bancários, entrando na alta temporada de viagens de verão, enquanto nos EUA, gargalos reais de abastecimento podem ocorrer em julho.
Ferramentas de política ineficazes: redução de impostos não resolve a escassez real
Sobre a possibilidade do governo Trump suspender o imposto federal sobre a gasolina, Currie é direto: isso não resolve absolutamente nada.
Ele acredita que a única saída para a crise de oferta é aumentar a disponibilidade física do produto. A liberação do SPR fez isso até certo ponto, mas ele destaca que, desde o anúncio dessas políticas, o preço dos índices que rastreiam commodities – incluindo o subíndice de petróleo do Bloomberg Commodity Index, USO e produtos relacionados do BMO – continua subindo, o que é um sinal claro do mercado: o problema fundamental do abastecimento ainda não foi resolvido.
Sua conclusão é que, mesmo que amanhã seja anunciada a reabertura do Estreito de Ormuz, levará pelo menos seis meses entre o anúncio e a resolução efetiva do problema.
O "momento terras raras": da escassez à ausência de oferta
Currie diferencia a condição atual do mercado de commodities de choques de preços do passado. Ele observa que, em 2008, quando o preço do petróleo atingiu US$ 147 por barril, ainda havia falhas, o mercado estava apenas racionando globalmente; cenário semelhante ocorreu após a invasão russa da Ucrânia em 2022.
Desta vez, porém, há uma diferença notável: o mercado está passando de "escassez" para "ausência" de produtos. Ele chama essa transição de "momento terras raras", dando o exemplo de uma pequena bateria em uma porta de carro — ao ser retirada, a linha de produção em Detroit para imediatamente. Ele considera que, quando insumos essenciais são retirados do sistema econômico, os efeitos em cadeia superam em muito a importância nominal desses itens no PIB.
Janela de rotação de capital: dos bits para os átomos
Currie acredita que a atual negligência do mercado em relação ao setor de commodities se deve, em parte, a uma má interpretação da narrativa da IA. Ele aponta que a infraestrutura de computação de IA atual é, na essência, uma combinação de bits e átomos, mas o mercado tem focado apenas nos bits, ignorando os átomos.
Ele usa o cobre como exemplo: o cobre bateu recorde histórico há duas semanas, em parte porque o impasse no Estreito de Ormuz prejudicou o fornecimento de ácido sulfúrico, impactando o refino de cobre. Ele argumenta que o preço dos bits tende a zero, enquanto o custo dos átomos está em uma crescente convergente; e, se houver uma escassez física real de átomos, o setor de tecnologia sentirá o impacto.
Ele destaca também um pano de fundo estrutural: atualmente, os setores de energia e materiais respondem por apenas cerca de 6% do peso dos índices de ações, enquanto o setor de IA e os segmentos correlatos já somam mais de 50%. Essa disparidade de pesos faz com que os sinais das commodities sejam ignorados pelo mercado por longos períodos — até que se tornem impossíveis de ignorar.
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